Quem disse que é tarde voltar para TI?

Existe uma pergunta que aparece com frequência nos comentários dos meus vídeos e nas mensagens que recebo: ainda dá tempo de voltar para a área de TI depois dos 40 anos?

O problema, na maioria das vezes, não é a idade. É a estratégia.

Muitos profissionais experientes acreditam que precisam disputar exatamente as mesmas vagas e usando o mesmo formato de currículo de alguém recém-formado. E, nessa comparação, acabam enxergando apenas o que perderam: familiaridade com tecnologias recentes, ritmo de estudo ou experiência prática mais atual.

Mas essa é uma comparação injusta. Quem está começando oferece energia, disponibilidade e facilidade para aprender tecnologias novas. Mas quem já construiu uma carreira oferece outra coisa: maturidade, responsabilidade, capacidade de comunicação, compromisso e, principalmente, visão de negócio.

Esses atributos não aparecem em uma certificação. Eles são adquiridos ao longo de anos de experiência profissional.

Mas e se o profissional saiu da área de TI?

Essa é outra situação muito comum que eu encontro tanto no curso quanto nos comentários dos vídeos e artigos.

Muitas pessoas começaram na tecnologia, migraram para outras áreas e, anos depois, cogitam voltar. E esquecem que, no período em que estiveram em outras áreas adquiriram algo que um candidato recém-formado de 22 anos não tem: conhecimento de negócio.

Se você ficou, digamos, 15 anos afastado da área de tecnologia, alguma coisa você fez nesse período. Pode ter sido contador, analista financeiro, corretor de seguros, vendedor, profissional de RH, operador logístico, gerente de projeto, funcionário de banco, ou exercido qualquer outra função.

Nesse tempo, você pode não ter aprendido a última linguagem de programação nem a arquitetura da moda, mas aprendeu regras, processos, riscos, controles e a linguagem utilizada no ramo de negócio em que atuou.

Agora compare isso com quem acabou de concluir um curso de computação. Quem entende melhor o funcionamento de uma instituição financeira e estará mais capacitado para propor soluções para problemas reais?

Aprender uma linguagem de programação exige dedicação, mas aprender como funciona um banco, uma seguradora, uma empresa de logística ou um departamento de recrutamento de recursos humanos exige anos de experiência.

E é esse conhecimento de negócio que precisa aparecer em destaque no currículo.

“Você vive falando de mainframe. Onde ele entra nessa história?”

Grande parte dos sistemas corporativos utilizados por bancos, seguradoras, empresas de telecomunicações, indústrias e órgãos públicos foi construída ao longo de décadas. Esses sistemas não armazenam apenas dados. Eles representam regras de negócio acumuladas e validadas durante muitos anos.

E esses sistemas precisam de manutenção. Não são sistemas departamentais que serão substituídos pela nova onda tecnológica. E manutenção de sistemas é basicamente implementar funcionalidades, alterar regras de negócio e resolver problemas.

E quem passou os últimos anos justamente resolvendo problemas de negócio?

O profissional que dedicou os últimos 15 anos apurando impostos sob regras novas, analisando crédito sob novos parâmetros econômicos, rastreando pedidos e roteando entregas com novas tecnologias, ou analisando novos riscos de fraude.

Capacite-se tecnicamente em alguma tecnologia, procure vagas de TI na área de negócio que você conhece e destaque essa experiência em resolver problemas no currículo e na entrevista.

Então por onde começar?

Se você está pensando em voltar para a área de tecnologia, minha sugestão é: não tente aprender tudo ao mesmo tempo. Comece fortalecendo sua lógica de programação e depois aprenda (ou reaprenda) a linguagem de programação predominante em sistemas corporativos centrais da área que você domina.

Só depois disso avance para conhecer o ecossistema que existe em volta dessa linguagem.

Experiência continua sendo um patrimônio

Empresas querem profissionais jovens com grande potencial técnico e que estão numa fase da carreira em que aceitam ganhar pouco? Com certeza!

Mas empresas também querem profissionais mais experientes que entendam rapidamente o que a conciliação bancária deveria estar fazendo e não está? Com certeza também.

Existe uma ideia muito difundida de que, depois dos 40 anos, o profissional precisa competir em velocidade com quem acabou de entrar no mercado. Eu não concordo.

Talvez sua maior vantagem não seja escrever código rapidamente. Talvez seja entender melhor como uma empresa funciona e como os problemas dela podem ser resolvidos com mais rapidez. E essa experiência ninguém consegue adquirir em um curso de poucos meses.

O mercado não procura apenas pessoas capazes de programar. Ele procura profissionais capazes de compreender problemas reais e construir soluções que façam sentido para o negócio.

Se você está considerando voltar para a área de TI, talvez a pergunta mais importante não seja “será que ainda dá tempo?”. Talvez seja: “como posso transformar toda a minha experiência profissional em um diferencial competitivo?”