O sistema de 60 anos que querem substituir há mais de 20
Em março de 2000, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou que um de seus sistemas corporativos seria desativado até outubro de 2002. O sistema havia sido desenvolvido em COBOL e Assembly, e sua primeira implementação remontava a 1964. Naquela época, com 36 anos de idade, sua substituição parecia uma decisão perfeitamente razoável.
Em julho de 2025, mais de duas décadas depois da data prevista para sua aposentadoria, o Government Accountability Office (GAO), órgão americano equivalente ao nosso Tribunal de Contas da União, publicou um relatório revelando que o sistema continuava em operação.
Sessenta anos de serviços prestados e dados processados
O sistema é utilizado por órgãos do Departamento de Defesa responsáveis pela administração e pelo pagamento de contratos de aquisição militar.
Por razões de segurança, o GAO não divulgou seu nome verdadeiro, identificando-o apenas como System 3. Segundo o relatório, o System 3 possui mais de 13 mil usuários e é considerado de alta criticidade. Seu custo operacional anual informado é de aproximadamente US$ 8,7 milhões, sem incluir todas as despesas de pessoal envolvidas em sua manutenção.
Em 2000, o Departamento de Defesa iniciou uma tentativa de substituição que deveria ser concluída em 2002, mas encontrou dificuldades relacionadas à capacidade das tecnologias e arquiteturas existentes na época e à complexidade das funcionalidades do sistema. O relatório do GAO não informa, mas estamos falando de um período em que Java, J2EE, cliente-servidor, CORBA e COM/DCOM eram as alternativas mais populares. O desafio era determinar se alguma delas permitiria substituir, com segurança, todas as funcionalidades do sistema existente.
Em 2015, outro plano de modernização foi elaborado, mas não chegou a ser executado por falta de financiamento.
Em 2024, um novo estudo examinou alternativas para modernizar o ambiente, incluindo a tradução automatizada do código COBOL e Assembly. Em julho de 2025, o GAO informou que o investimento estimado estava entre US$ 60 milhões e US$ 90 milhões. Uma prova de conceito envolvendo tradução automatizada estava em andamento, mas ainda não havia um cronograma definitivo para a modernização.
O que realmente precisa ser substituído?
Sistemas legados crescem como organismos complexos: com o tempo, surgem novas regulamentações, modalidades contratuais, procedimentos de fiscalização, regras de reajuste, exceções administrativas, exigências de prestação de contas… Regras são substituídas. Outras continuam válidas apenas para determinados contratos e não para outros. Situações excepcionais e raras precisam ser tratadas corretamente.
O problema é que nem sempre a organização consegue explicar por que todas essas regras existem. Algumas foram criadas há décadas, para atender situações que talvez nem ocorram mais. Outras continuam essenciais, mas sua justificativa original se perdeu. Como distinguir umas das outras?
Por isso, a conversão de programas COBOL para outra linguagem, mesmo quando automatizada, representa apenas uma parte do trabalho. Uma ferramenta pode traduzir instruções e estruturas de dados, mas não consegue decidir, sozinha, quais regras de negócio continuam necessárias ou quais comportamentos históricos podem ser abandonados em prol da construção de uma nova arquitetura eficiente.
A tradução pode produzir um sistema escrito em uma linguagem moderna, mas que continua reproduzindo uma arquitetura concebida décadas antes, desperdiçando parte dos benefícios que eram esperados quando se decidiu pela modernização.
O conhecimento também envelhece
Existe outro problema documentado pelo GAO que talvez seja ainda mais preocupante.
Segundo os responsáveis pelo System 3, a idade média dos desenvolvedores e especialistas técnicos que trabalham no sistema é superior a sessenta anos.
O Departamento de Defesa reconhece dificuldades para encontrar profissionais com conhecimentos de COBOL e Assembly. Mesmo quando consegue contratá-los, a curva de aprendizagem é significativa.
Isso revela uma diferença importante entre conhecer uma linguagem e conhecer um sistema: um programador experiente pode aprender a sintaxe de COBOL em algumas semanas. Mas compreender um sistema corporativo desenvolvido ao longo de sessenta anos é uma tarefa completamente diferente.
É necessário conhecer estruturas de dados, interfaces, procedimentos operacionais e, principalmente, as regras de negócio que justificam seu comportamento. Esse conhecimento dificilmente estará comentado no código-fonte. Ao perder seus especialistas, a organização perde parte da capacidade de compreender, modificar e reescrever os programas desse sistema.
Imagine que, durante a modernização, os desenvolvedores encontrem uma regra que ninguém consegue explicar. Sem documentação ou especialistas capazes de justificar sua existência, a equipe decide eliminá-la.
O novo sistema entra em produção e funciona perfeitamente, até que surge uma situação excepcional para a qual aquela regra havia sido criada. O programa executa exatamente o que foi especificado, mas produz um resultado incorreto.
O erro não aconteceu na programação. Aconteceu quando alguém decidiu eliminar uma regra cujo propósito já não era compreendido.
O paradoxo da modernização
O Departamento de Defesa reconhece que o sistema precisa ser modernizado. Existem riscos associados à obsolescência tecnológica, dificuldades de manutenção e dependência de conhecimentos especializados.
Ao mesmo tempo, o sistema continua desempenhando uma função essencial. Substituí-lo exige um investimento de dezenas de milhões de dólares, envolve riscos operacionais e depende da compreensão de funcionalidades acumuladas durante décadas.
E esse custo não permanece necessariamente constante. Enquanto o sistema continua operando, novas exigências surgem, regras são alteradas, interfaces precisam ser mantidas e profissionais experientes deixam a organização. O organismo complexo continua crescendo.
A substituição que parecia difícil em 2002 pode ser mais complexa em 2025, e possivelmente o será ainda mais em 2035.
Se o sistema continua funcionando, talvez isso também signifique que ele foi suficientemente flexível para acompanhar as transformações do negócio durante décadas. E essa mesma capacidade de adaptação que permitiu sua longevidade pode ter contribuído para tornar sua substituição mais difícil.
Afinal, por que o COBOL continua vivo?
Quando se discute a longevidade do COBOL, alguns dinossauros, como eu, procuram explicações nas características da linguagem. Sua orientação ao processamento de dados comerciais, a legibilidade de seus comandos, a precisão dos cálculos decimais e a estabilidade das plataformas em que é executado certamente contribuíram para sua adoção e permanência.
Mas talvez essas explicações sejam insuficientes.
Bancos, seguradoras, governos e grandes empresas não nasceram com o computador. Seus processos de negócio são anteriores à informática e, em muitos casos, continuam existindo independentemente das tecnologias utilizadas para executá-los. E o COBOL foi uma das primeiras linguagens amplamente adotadas para transformar esses processos em sistemas informatizados.
Em determinado momento, esse sistemas deixaram de ser apenas implementações de processos previamente definidos. Passaram também a representar uma parte importante do conhecimento que as organizações possuem sobre seu próprio funcionamento.
É por isso que substituir esses sistemas pode ser tão difícil.
Não porque seja impossível escrever programas equivalentes em Java, C# ou qualquer outra linguagem moderna. Mas porque a linguagem é apenas a superfície visível de uma estrutura muito mais complexa.
Costumamos perguntar como uma linguagem criada em 1959 consegue sobreviver a tantas gerações de tecnologia.
Mas o COBOL não sobreviveu sozinho. Ele permaneceu porque os sistemas construídos com ele continuaram atendendo organizações cujas atividades, obrigações e relações econômicas também atravessaram gerações.
A longevidade do COBOL não se explica apenas pela resistência de uma linguagem antiga. Ela está diretamente relacionada à longevidade das organizações que aprenderam a depender dela.
