O mainframe tem data para morrer

Em março de 1993, o jornalista Stewart Aslop, do (então) jornal InfoWorld, assinou um artigo em que anunciou que a morte do mainframe era iminente, devido ao surgimento da arquitetura Cliente/Servidor.

Confiante em sua capacidade de profecia, no mesmo artigo o jornalista marcou a data do falecimento: o último mainframe seria desligado em 15 de março de 1996. Ele cita também a previsão de Cheryl Currid – escritora, consultora e jornalista especializada em tecnologia – que previu que mainframes parariam de trabalhar em 31 de dezembro de 1999, e terminava o artigo estimulando os leitores a enviarem suas próprias previsões.

A euforia com a arquitetura Cliente/Servidor

No final da década de 1980 e início dos anos 1990, o modelo centralizado dos grandes mainframes começava a ser desafiado por uma nova proposta: a chamada arquitetura Cliente/Servidor.

A promessa era sedutora.

Em vez de concentrar todo o processamento em um único equipamento de grande porte, as aplicações poderiam ser distribuídas entre servidores menores (não mais mainframes IBM ES-9000 ou Unisys A9) e estações de trabalho mais poderosas (não mais terminais burros IBM 3278/3472 ou Unisys T27), que ganhavam capacidade a cada nova geração de processadores Intel e RISC. O computador pessoal deixava de ser apenas um terminal “burro” e passava a executar parte da lógica da aplicação.

Esse movimento ficou conhecido como downsizing. A ideia era simples e comercialmente poderosa: substituir máquinas grandes, caras e centralizadas por um conjunto de servidores menores, supostamente mais baratos e mais flexíveis.

A nova arquitetura prometia:

  • Redução drástica dos custos de hardware
  • Maior agilidade no desenvolvimento de aplicações
  • Interfaces gráficas mais amigáveis
  • Independência de grandes fornecedores
  • Maior liberdade tecnológica

(Sim, você ouviu esses mesmos argumentos sobre as vantagens de outras arquiteturas “definitivas” nas décadas posteriores).

A narrativa era convincente. Parecia inevitável que os mainframes – associados a salas refrigeradas, piso suspenso, operadores especializados vestidos de jaleco e linguagens consideradas “antigas” –  seriam gradualmente substituídos por ambientes mais modernos, distribuídos e abertos.

Naquele contexto, decretar a morte do mainframe não soava como provocação. Soava como constatação. Era o tipo de afirmação que provocava aplausos e olhares de admiração em qualquer conferência de tecnologia, os likes da época.

Não parecia moda vazia. E não era.

A arquitetura Cliente/Servidor entregou muito do que prometia:

  • As interfaces gráficas eram mais amigáveis: Clicar em botões, combos e options; saltar para o campo sem depender de tabs; mensagens de alerta destacadas… tudo era mais simples do que decorar sequências de teclas PF1 a PF24, PA1 a PA3 e  Erase EOF.
  • A descentralização dava autonomia às áreas: Departamentos não mais precisavam disputar entre si a esteira de desenvolvimento e manutenção de sistemas. Padrões e protocolos, antes centralizados, agora podiam ser adaptados para a realidade de cada área de negócio. Em muitos casos era possível até mesmo dedicar recursos de infraestrutura e operação para setores específicos da organização.
  • A dependência de fornecedores únicos diminuía: Era possível ter hardware Sun, Compaq ou HP; rede Novell com placas 3Com;  bancos de dados Oracle, Microsoft SQL Server e/ou Sybase; sistemas escritos em Borland Delphi, Microsoft Visual Basic, Sybase Powerbuilder… Tudo ao mesmo tempo, escolhidos em função dos últimos lançamentos e das últimas evoluções.

Havia a sensação concreta de que a tecnologia estava finalmente saindo do ambiente restrito dos grandes centros de processamento e chegando mais perto do usuário final. Desenvolvedores experimentavam novas ferramentas com métodos de construção mais intuitivos. Gestores viam custos aparentemente mais previsíveis.

Em muitos cenários, a arquitetura Cliente/Servidor não apenas funcionou — ela foi a escolha correta. Para aplicações departamentais, para organizações em crescimento, para ambientes que precisavam de agilidade e personalização, o modelo entregou ganhos reais de produtividade e inovação.

Não se tratava de uma moda vazia. Tratava-se de uma transformação realmente plausível.

Mas toda promessa precisa encontrar-se com a realidade

Nos primeiros anos, qualquer dificuldade enfrentada pela arquitetura Cliente/Servidor era tratada como algo natural em uma tecnologia emergente. Problemas de performance? Ajuste fino. Falhas de integração? Troca o fornecedor. Custos inesperados? Faz parte da curva de aprendizado.

Havia uma insistência — por parte de alguns especialistas e também de muitas organizações — de que não existia um problema estrutural. Existiam apenas desafios de implementação.

  • Se um servidor não suportava a carga, bastava adicionar outro;
  • Se a rede congestionava, ampliava-se a infraestrutura;
  • Se o banco de dados engargalava, fazia-se tunning com mais frequência;
  • Se a administração se tornava complexa, contratava-se mais gente.

Escalabilidade era solução para quase tudo.

Mas à medida que as empresas cresciam, e suas operações se tornavam mais digitais e mais interdependentes, começaram a surgir sinais de que os ajustes não estavam apenas refinando o modelo — estavam compensando fragilidades.

A promessa de sistemas mais baratos começou a esbarrar no custo acumulado de dezenas ou, às vezes, centenas de servidores subutilizados. A promessa de simplificidade deu lugar a ambientes exageradamente heterogênos, difíceis de integrar e ainda mais difíceis de manter. A promessa de autonomia transformou-se, em alguns casos, em ilhas tecnológicas dentro da mesma organização.

Enquanto isso, o mainframe continuava fazendo aquilo que sempre fez. E evoluindo.

Enquanto departamentos de TI tentavam corrigir a rota, o mainframe seguia cumprindo sua função silenciosa: processar grandes volumes de transações com previsibilidade, estabilidade e controle.

O “front-end” não era bonito. Mas o bicho era um cavalo na hora de subir a montanha com a carga nas costas.

Três aspectos ficaram particularmente evidentes ao longo dos anos:

  1. Downtime não é apenas inconveniente. É prejuízo.

Ambientes distribuídos multiplicaram pontos de falha: servidores, switches, roteadores, bancos de dados, middleware, integrações entre fornecedores diferentes. Cada novo elemento adicionava flexibilidade — e também risco.

Mainframes, por outro lado, foram concebidos desde a origem para alta disponibilidade. Redundância de componentes, hot swap de hardware, particionamento lógico, isolamento de falhas. Não era uma “feature adicional”. Era parte do DNA da plataforma.

Para organizações cujo faturamento depende de milhões de transações por hora, indisponibilidade não é irritação. É risco sistêmico.

2. Segurança não é um módulo opcional.

Ambientes cliente/servidor cresceram com uma mentalidade de abertura e conectividade. Isso trouxe agilidade — mas também superfície de ataque.

No mainframe, controle de acesso granular, segregação rigorosa de ambientes, auditoria detalhada e gestão centralizada sempre foram premissas, não adições tardias. O RACF não estava lá só para irritar o desenvolvedor.

À medida que ataques cibernéticos se tornaram mais sofisticados, muitas organizações perceberam que o modelo centralizado e fortemente controlado tinha virtudes que haviam sido subestimadas.

3. Consistência em escala é mais difícil do que parece.

Sistemas distribuídos precisam coordenar estados entre múltiplos nós. Precisam garantir integridade transacional entre camadas distintas. Precisam lidar com latência, concorrência e sincronização.

Mainframes, por outro lado, nasceram para processar volumes massivos de transações mantendo integridade e atomicidade como requisito básico.

E continuaram evoluindo, aumentando ano a ano sua capacidade de integração com outras plataformas e arquiteturas, fortalecendo a segurança, multiplicando sua capacidade de processamento, sem perder aquilo que todo CIO gosta de ouvir: retrocompatibilidade.

Não é coincidência que, mesmo após décadas de previsões de obsolescência, bancos centrais, grandes bancos comerciais, seguradoras e governos continuem confiando seus sistemas de missão crítica a essa plataforma.

Conclusão

A arquitetura Cliente/Servidor não foi um erro. Ela transformou a TI corporativa e abriu espaço para inovação real.

Mas a morte do mainframe nunca foi decretada por aqueles que realmente tomam a decisão: as grandes organizações.

O erro do artigo de 1993 foi acreditar que confiabilidade, consistência e disponibilidade seriam facilmente replicáveis apenas distribuindo servidores menores pelo data center. O erro foi se deixar empolgar pela inovação, sem projetá-la em cenários diferentes.

Trinta anos depois, o mainframe não apenas continua ligado — como sustenta boa parte das operações financeiras, fiscais e industriais do mundo.

E continua salvando organizações em seus sistemas de missão crítica.