Quando “modernizar” vira sinônimo de fracasso: o caso ASX e a lição para sistemas críticos

Apesar de tecnologia disruptiva e transformação digital terem se transformado em palavras de ordem, anunciadas e vendidas como absolutamente mandatórias nos dias de hoje, vale a pena tentar entender alguns casos em que a modernização nem sempre entrega aquilo que anuncia.

Um exemplo recente e bastante eloquente envolve a Australian Securities Exchange (ASX), a principal bolsa de valores da Austrália. Por quase sete anos, a ASX trabalhou em um ambicioso projeto para substituir seu sistema crítico de liquidação e custódia — o CHESS — por uma solução baseada em blockchain / Distributed Ledger Technology (DLT).

No entanto, em novembro de 2022, após anos de atrasos e revisões de projeto, a ASX abandonou completamente a iniciativa e contabilizou um prejuízo de centenas de milhões de dólares australianos.

O projeto e suas promessas

CHESS (Clearing House Electronic Subregister System) é um sistema construído no início dos anos 1990 – predominantemente em COBOL e rodando em plataforma mainframe – para controlar transações de compra e venda de ativos negociados na principal bolsa de valores da Austrália. Ele processa, em média, 2,5 milhões de transações por dia e é dimensionado para suportar picos de 10 milhões de transações e uptime de 99,95%.

O objetivo era substituí-lo por uma plataforma moderna baseada em blockchain que supostamente ofereceria:

  • Maior eficiência no processamento
  • Tempos de liquidação mais rápidos
  • Redução de custos operacionais
  • Maior transparência e segurança

O projeto foi anunciado em 2016 e, em sua fase inicial, chegou a ser visto como um marco mundial na adoção de DLT em infraestrutura de mercado financeiro. O plano era lançar o novo sistema em 2018.

A realidade e os problemas

Apesar da ambição e do financiamento, o projeto enfrentou grandes desafios ao longo dos anos. Depois de vários adiamentos, uma auditoria realizada pela Accenture em 2022 destacou os seguintes problemas:

1. Complexidade técnica

Havia deficiências significativas no design da solução, incluindo desafios em atender aos requisitos operacionais e de desempenho: throughput, latência, consistência transacional sob concorrência intensa, recuperação de falhas, sincronização de estado entre os participantes etc.

2. Atrasos sucessivos

O lançamento foi adiado diversas vezes. Antes do cancelamento definitivo do projeto, a previsão já estava em 2023. O desenvolvimento não alcançou os marcos críticos esperados e havia muita discussão sobre o progresso reportado tanto pela ASX quanto pela Digital Assets (DA), empresa contratada para executar o projeto.

3. Custos elevados

O projeto acumulou custos substanciais ao longo dos anos. A ASX chegou a reconhecer um prejuízo de cerca de 240–255 milhões de dólares australianos (algo em torno de US$ 170 milhões) quando decidiu interromper o desenvolvimento.

4. Governança e comunicação

Em 2024, o órgão regulador australiano — a Australian Securities and Investments Commission (ASIC) — entrou com ação judicial contra a ASX por ter publicado declarações consideradas enganosas sobre o avanço real do projeto, como quando disse que ele estava “progredindo bem” mesmo diante de atrasos e obstáculos que já haviam sido identificados.

A ASIC alegou que essas afirmações criaram uma expectativa distorcida sobre o verdadeiro estado do projeto, algo crítico em mercados financeiros onde participantes tomam decisões de investimento com base nas comunicações oficiais.

Mas afinal, por que projetos assim são tão difíceis?

Não foi a primeira, nem será a última, tentativa de substituição de sistemas legados que terminam em prejuízo, fracasso e pedidos públicos de desculpas.

Modernizar sistemas críticos não é apenas trocar uma tecnologia por outra. É substituir uma infraestrutura que foi moldada e validada durante décadas para operar sob condições extremas.

Quando falamos de um sistema de mercado — como o de compensação e liquidação de uma bolsa de valores — estamos falando de uma engrenagem que precisa funcionar com precisão cirúrgica. E isso envolve alguns requisitos que parecem simples no papel, mas são brutalmente difíceis de reproduzir na prática.

1. Escala com consistência absoluta

Não basta processar milhões de transações por dia. É preciso garantir que cada uma delas seja: atômica, consistente, isolada e durável. E isso não é desejável; é obrigatório: se o sistema não garante, não adianta lançar um MVP sem isso e esperar pela próxima release.

Em arquiteturas distribuídas, manter consistência forte sob alta concorrência exige coordenação entre múltiplos nós. E essa coordenação custa latência. E latência, em mercado financeiro, custa dinheiro.

2. Latência previsível

Em um ambiente de bolsa, o sistema precisa responder dentro de janelas de tempo extremamente controladas. Não pode haver variações imprevisíveis causadas por comunicação entre nós, sincronização de estado, consenso distribuído ou congestionamento de rede.

Microserviços e blockchain introduzem camadas adicionais de comunicação e validação. Isso aumenta flexibilidade — mas também aumenta variabilidade.

3. Finalidade determinística

Quando uma transação é liquidada, ela precisa ser final. Sem ambiguidade. Sem pendências. Sem “eventual consistency“.

Modelos baseados em consenso distribuído podem introduzir complexidade adicional para garantir essa finalidade, especialmente quando múltiplos participantes precisam, todos ao mesmo tempo, ter cópias sincronizadas do estado dessas transações.

4. Disponibilidade real, não teórica

Em apresentações comerciais, muitas arquiteturas prometem alta disponibilidade. Na prática, porém, ambientes distribuídos multiplicam pontos de falha. E quanto mais pontos possíveis de falha, maior a probabilidade de algo sair do eixo.

Mainframes foram concebidos com redundância profunda, isolamento de falhas e mecanismos de recuperação que evoluíram por décadas sob pressão real.

Isso não significa que sejam “melhores em tudo”. Significa que foram desenhados especificamente para esse tipo de carga.

Conclusão

Modernização não é só técnica e tecnologia. É preciso reescrever processos, requalificar equipes, redefinir governança, ajustar compliance, reconstruir integrações, migrar dados históricos e validar cada cenário de exceção acumulado ao longo dos anos.

Também por isso, quando muita gente acreditava que o bug do milênio decretaria o fim do mainframe e do COBOL, a solução escolhida pelo mercado foi a renovação dos sistemas legados.

Sistemas financeiros acumulam exceções como fósseis geológicos. Muitos projetos falham não porque a tecnologia seja incapaz, mas porque a complexidade real do ambiente é muito maior do que aquela descrita nos documentos de arquitetura e nos cronogramas do projeto.