Eu não cansei da profissão. Eu cansei do negócio.

Assisti recentemente uma série chamada The Pitt. A história se passa na emergência de um hospital de Pittsburgh, e uma coisa me chamou a atenção: o ator que interpreta o protagonista, Noah Wyle, é o mesmo que participou de outra série que se passava num pronto-socorro, vinte e cinco anos atrás, chamada ER.
Em ER, Noah Wyle interpretava um interno que começava sua carreira como médico. Em The Pitt ele interpreta o chefe do setor de emergência. E comparando um personagem com o outro, a gente percebe duas coisas:
- Os dois amam a medicina
- O segundo está cansado do hospital
Mas o que isso tem a ver com Mainframe e Cobol?
Tudo, colega!
Comecei a programar aos 15 anos. Aos 16, fiz meu primeiro curso de Cobol. Como ninguém tinha computador em casa, eu ia para a Mesbla com um programa em Basic escrito a mão para testar no CP-500 do show room.
Aos 20, fui contratado como programador.
Tecnologia para mim não era uma carreira, era identidade.
Virei muita noite para ganhar 15 minutos de processamento num programa que levava três horas para rodar. Já perdi noite de sono para construir um programa em Cobol que otimizasse cortes num rolo de insulfilm. Persegui precisão no cálculo de juros compostos num compilador que só tinha ADD, SUBTRACT, DIVIDE e MULTIPLY…
Eu adorava aquilo.
Mas o prêmio por ser um bom técnico é virar gerente
E aí você cai na correnteza: de programador a analista, analista de suporte, líder técnico, coordenador, arquiteto de solução, gerente, executivo de projeto…
De repente você sai do aquário e descobre novos desafios: prazos curtos, custos restritivos, responsabilidade difusa, negociação, mediação, política, burocracias e manias organizacionais, power-points com carinhas alegres e tristes (com respostas prontas para explicar as tristes), contratações equivocadas, demissões para cortes de orçamento, sucessos não celebrados e fracassos ruidosos.
Estou dizendo que isso é ruim? Claro que não. Esse é o “bioma”. Podem inventar a metodolodia que quiser, os “perigos” do ecossistema da tecnologia da informação ainda estarão lá e alguém vai ter que enfrentá-los.
Essas intercorrências transformam técnicos competentes em profissionais maduros, colaboradores realistas, artistas com repertório e, no final, pessoas um pouco melhores.
A distinção fundamental e o retorno às origens
Com o tempo, a ressaca de adrenalina corporativa começa a demorar mais para passar. Aquela jaca que a gente matava no peito vai ficando mais pesada, a perna não chega na bola com a mesma facilidade e, o pior, parece que os problemas simplesmente se repetem e os desafios são sempre os mesmos, semana após semana, mês após mês.
É nessa hora que a confusão acontece e muita gente pensa: “eu não gosto mais dessa profissão”.
Mas não é da profissão que você está cansado, é do “negócio”.
E talvez seja a hora de procurar aquele programador que ficou escondido, mesmo que você ache que já esqueceu tudo o que sabia.
Os caminhos para trazê-lo de volta são vários e, no meu caso, escolhi dois deles:
- Descobri a programação recreativa e comecei a codificar programas que nunca teria oportunidade de construir, como por exemplo, um jogo da cobrinha em COBOL que usa BFS, DFS, Greedy e Hamilton e joga sozinho. 🙂
- Ensinar COBOL para quem quer entrar nessa área, do mesmo jeito que aprendi, simulando programas e situações sistêmicas reais. Ensinar te obriga a rever tudo o que você achou que havia esquecido e voltar a entender o “por quê” de coisas que você fazia no automático.
Conclusão
Às vezes não precisamos abandonar a profissão. Precisamos abandonar o papel que nos afastou dela.
Ou, para manter a metáfora, demitir o Dr. Robby do The Pitt e recontratar o Dr. Carter de ER.