Já vimos esse filme tantas vezes que não nos emocionamos mais

O anúncio recente da Anthropic sobre a capacidade do Claude Code entender COBOL provocou pânico no mercado financeiro e reações diversas de vários especialistas e empresas. Escrevi sobre isso recentemente em outro artigo (link aqui).
Mas esse tema me fez lembrar de outros momentos na área da tecnologia em que novidades se transformaram em previsões ameaçadoras. E não foram poucos.
Entre o fascinante e o improvável
Nos anos 1990, lembro de um grande “influencer” da área (numa época em que redes sociais não existiam e essa palavra nem havia sido criada), dando entrevista para o Fantástico dizendo que, com a Internet, “ele passeava com a mulher pelo mundo e de vez em quando, sem querer, eles se encontravam nos corredores do Louvre”.
Sério? Com HTML 1.0?
O público, que naquele momento não tinha ideia do que vinha pela frente, ficava entre fascinado e assustado com aquelas revelações: “Imagina! Poder andar livremente pelo mundo e esbarrar com pessoas conhecidas nas galerias do Louvre, pelas ruas do Vaticano ou nos elevadores da Torre Eiffel…”.
Quando a web 2.0 chegou, – uns 10 ou 15 anos depois – “esbarrar” com pessoas era possível, mas não da maneira romântica sugerida pelo “mágico de Oz” na entrevista ao Fantástico.
Quando o software se escreveria sozinho
Aí me lembrei de outro episódio.
Poucos anos antes dessa curiosa entrevista para o Fantástico, uma nova categoria de ferramentas ganhou enorme destaque no mercado da tecnologia: as chamadas ferramentas “CASE” (Computer-Aided Software Engineering).
A promessa era ambiciosa. Assim como o CAD havia transformado a engenharia mecânica, o CASE transformaria o desenvolvimento de software em um processo automatizado, estruturado e previsível.
Essas ferramentas permitiam modelar sistemas por meio de diagramas, fluxos e definições de dados que, em teoria, poderiam gerar automaticamente grande parte do código-fonte. A narrativa dominante na época sugeria que o desenvolvimento deixaria de ser uma atividade artesanal, dependente de programadores experientes, para se tornar um processo quase industrial — com muito menos necessidade de escrita manual de código e, para alguns entusiastas, com muito menos necessidade de programadores.
Juntando CASE com a novidade das interfaces gráficas, muita gente boa imaginou o cenário onde o usuário final construiria seus próprios sistemas. Bastaria desenhar algumas caixas, expandi-las até níveis menores, definir alguns parâmetros e, pronto: tá lá o sistema de conta corrente!
A conclusão implícita era simples: programadores e analistas de sistema estavam com os dias contados.
O que realmente aconteceu
Ferramentas CASE não criavam metodologias de desenvolvimento de sistemas: elas se adaptavam às metodologias da moda.
E foram muitas.
Da análise estruturada de Chris Gane, Tom DeMarco e Edward Yourdon, à Análise Orientada a Objetos de Rumbaugh, Booch e Jacobson, passando pela Análise Essencial de Sistemas de Peter Checkland e James Martin, metodologias e suas adaptações surgiam aos montes. Gastei muito dinheiro com livro nessa época.
Logo, usuários finais desenvolvendo seus próprios sistemas teriam que, antes de qualquer coisa, se especializar na(s) metodologia(s) de desenvolvimento de sistemas contemplada(s) pela ferramenta CASE escolhida.
Mas, além disso, as próprias plataformas sobre as quais os sistemas eram construídos também evoluíam. Surgiram interfaces gráficas, arquiteturas cliente-servidor, bancos de dados distribuídos, redes corporativas cada vez mais integradas. O escopo dos sistemas foi se tornando interorganizacional.
Cada nova camada tecnológica adicionava possibilidades, mas também complexidade. Integrações com sistemas externos, requisitos regulatórios crescentes, volumes de dados exponenciais, expectativas de disponibilidade quase contínua. A promessa de automatizar a geração de código esbarrava em algo mais profundo: a complexidade não estava apenas na escrita do programa, mas nas interações entre processos, pessoas, regras de negócio e infraestrutura.
Em vez de reduzir a necessidade de especialistas, a evolução das plataformas elevou o nível de abstração exigido. Descobriram que o desenvolvedor não era apenas alguém que “escrevia código” e sim alguém que compreendia arquitetura, integração, desempenho, segurança e impacto organizacional. As ferramentas ajudaram — e muito — mas não eliminaram o papel humano. Apenas mudaram o tipo de competência necessária.
E o que isso tem a ver com Claude Code e COBOL?
O frisson que agitou o mercado esta semana — com manchetes apressadas e quedas expressivas no valor das ações da IBM — não é um fenômeno novo. Ele faz parte de um padrão recorrente: sempre que surge uma tecnologia com potencial de reduzir custos ou acelerar processos, a primeira reação é extrapolar seus efeitos até o limite máximo.
E tem sido assim com:
- Ferramentas CASE
- Linguagens de quarta geração
- Arquitetura Cliente-Servidor
- Web
- Computação em nuvem
- IA
Em cada uma dessas ondas, previu-se o desaparecimento de profissões, plataformas ou paradigmas inteiros. E, em cada uma delas, o que realmente ocorreu foi mais sutil — e mais complexo.
A IA aplicada ao código, como o Claude Code da Anthropic, tem potencial real de acelerar análise, documentação e testes. Isso é relevante. Mas transformar essa capacidade em uma narrativa de “substituição completa” ignora a mesma variável que frustrou previsões passadas: sistemas críticos não são apenas código. São regras de negócio acumuladas, restrições regulatórias, integrações invisíveis, compromissos de disponibilidade e decisões arquiteturais construídas ao longo de décadas.
Conclusão
Reduzir o custo de entendimento não equivale a eliminar a complexidade organizacional.
Assim como as ferramentas CASE não tornaram os programadores obsoletos, a IA não transforma automaticamente sistemas legados em microsserviços prontos para desligar mainframes.
E talvez a lição histórica, já repetida algumas vezes, seja essa: tecnologias disruptivas raramente eliminam o que veio antes. Elas se sobrepõem, se integram e elevam o nível de exigência técnica e estratégica de quem trabalha na área.