Claude da Anthropic agora entende COBOL e ações da IBM despencam: lá vamos nós de novo

Essa semana, a empresa de IA Anthropic anunciou novas capacidades do seu produto Claude Code voltadas para análise e modernização de sistemas em COBOL.
A notícia ganhou repercussão porque envolve diretamente um dos pilares históricos da computação corporativa, tradicionalmente associada à IBM, que, por causa disso, viu suas ações despencarem mais de 10% em um único dia.
É o “mercado”, mais uma vez, vaticinando a morte do COBOL sempre que surge uma nova tecnologia e ela vira hype.
Mas o ponto realmente importante é outro: se empresas de inteligência artificial estão investindo pesado para entender o COBOL – não só a linguagem, mas principalmente a arquitetura dos sistemas e suas regras de negócio – é porque, definitivamente, o COBOL continua essencial para sistemas de missão crítica.
E muito.
O que a Anthropic anunciou?
Segundo a própria Anthropic, sua ferramenta é capaz de:
- Mapear dependências em bases com milhares (ou milhões) de linhas de código
- Documentar fluxos de processamento
- Identificar riscos ocultos
- Acelerar a fase de entendimento em projetos de modernização
No site da empresa, há uma afirmação interessante:
“A modernização de sistemas legados ficou estagnada por anos porque entender o código custava mais do que reescrevê-lo. A IA muda essa equação.“
Essa frase resume um desafio real que gestores conhecem bem.
Como toda comunicação de produto, o foco está na parte do problema que a ferramenta consegue acelerar – mas não na totalidade do desafio.
O verdadeiro gargalo da modernização
Tanto entender o código quanto reescrevê-lo custam caro. E continuarão custando.
É óbvio que tentar modernizar um sistema legado sem entendê-lo completamente sempre foi um dos grandes causadores de fracassos em projetos desse tipo. Da mesma forma, tentar substituir esse sistema – como um todo ou em parte – sem dominar as particularidades da arquitetura Mainframe/COBOL também sempre foi um fator que contribui para o insucesso.
Modernizar, portanto, apresenta dois grandes desafios:
- Por um lado, dominar a regra de negócio inserida, modificada e complementada ao longo de décadas: motivos para cálculos específicos, regras fiscais adaptadas ao longo do tempo, tratamento de exceções nunca documentadas e cujo propósito já se perdeu, integrações invisíveis com outros sistemas etc.
- Por outro, compreender por que o COBOL faz as coisas do jeito que faz: os tipos de dados específicos, a monumental capacidade de processamento em lote, a atomicidade das transações, a latência reduzida, o downtime mínimo, o nível de acoplamento, as dependências internas e externas etc.
Como a própria Anthropic menciona em seu anúncio, após analisar milhões de linhas de código, a IA sugere prioridades com base na complexidade, nas dependências e nos riscos identificados. Mas as pessoas continuam responsáveis por revisar essas recomendações e decidir quais componentes modernizar, considerando valor de negócio, risco técnico e prioridades organizacionais.
Os testes e a validação do código também são definidos antes de qualquer alteração. A IA elabora testes funcionais preliminares para verificar se o código migrado produz resultados idênticos ao COBOL legado e a equipe decide se esses testes são suficientes, quais cenários de negócio precisam de validação manual por especialistas no assunto e quais metas de desempenho os componentes modernizados devem atingir.
Ou seja, o desafio não desaparece. Ele ganha outros contornos.
A Anthropic, acertadamente, não promete uma panaceia para transformar tudo em microsserviços e dar shutdown definitivo nos mainframes. Ela vende o Claude Code como uma ferramenta que auxilia o especialista em COBOL a identificar componentes isolados ou workflows com limites bem definidos para viabilizar a integração do sistema legado, que continua existindo, com outras soluções em outras plataformas.
E é exatamente esse tipo de modernização que tem maior probabilidade de dar certo.
A IA é uma oportunidade ou uma ameaça?
Depende do ângulo que se quer enxergar. Para quem vê apenas sintaxe, pode parecer ameaça. Para quem sabe que um sistema crítico, com 40 anos de idade, pode ser modernizado em suas integrações mas que não pode ser reconstruído por voluntarismo, a IA é uma oportunidade.
A IA pode acelerar a modernização, mas não substitui o conhecimento e a experiência.
E isso muda completamente a conversa sobre carreira e estratégia tecnológica.
Conclusão
O movimento da Anthropic não sinaliza o fim do COBOL, nem tampouco o fim da IBM.
Sinaliza que o ecossistema corporativo está entrando, mais uma vez, em uma nova etapa, onde:
- Sistemas legados continuam essenciais
- Novas integrações são necessárias e inevitáveis
- A IA, nesse momento, talvez seja a maior ferramenta de apoio já construída
- A experiência e o conhecimento humano continuam essenciais
Se a inteligência artificial está aprendendo COBOL, é porque ele ainda importa.
E nesse universo, quem combinar domínio técnico, conhecimento de negócio, legado e IA estará em posição privilegiada nos próximos anos.