A ilusão da competência

Há muitos anos Laurence J. Peter e Raymond Hull escreveram um livro chamado Todo Mundo É Incompetente, Inclusive Você. Ele ficou muito famoso por uma ideia que passou a ser conhecida como Princípio de Peter: em uma organização hierárquica, as pessoas tendem a ser promovidas enquanto demonstram competência, até finalmente alcançarem uma posição para a qual já não são competentes.

Um excelente programador vira líder técnico. Se for bom nisso, pode virar gerente. Um bom gerente talvez se torne diretor. E assim sucessivamente, até que, em algum momento, aquela pessoa extremamente competente chega a uma função na qual já não é tão boa. Como deixou de se destacar, para de ser promovida. E fica lá.

É uma explicação divertida para algumas situações que todos nós já experimentamos nas empresas. Mas não é exatamente dessa incompetência que quero falar.

Estou pensando em uma coisa um pouco pior.

A ilusão de que alguém sabe

Quando somos jovens, especialmente no começo da carreira, é relativamente fácil acreditar que existe alguém que domine completamente o que está fazendo. Talvez seja o analista de sistemas. Talvez seja o coordenador. Talvez o arquiteto ou o gerente de TI.

Em algum lugar esperamos que exista alguém que compreenda o quadro inteiro, mas com o passar dos anos, essa crença começa a ficar mais difícil de sustentar.

Descobrimos que projetos milionários são aprovados com premissas que ninguém consegue comprovar. Estratégias são definidas a partir de previsões que envelhecem em seis meses. Arquiteturas cuidadosamente desenhadas precisam ser refeitas três anos depois. Produtos que todos tinham certeza de que seriam um sucesso fracassam. Tecnologias consideradas ultrapassadas sobrevivem durante décadas, enquanto outras, anunciadas como inevitáveis, desaparecem discretamente.

E o mais desconcertante é que muitas dessas decisões não foram tomadas por idiotas. Foram tomadas por pessoas inteligentes, experientes e, muitas vezes, muito competentes.

A competência não elimina o erro

Talvez esse seja o problema com a palavra incompetência. Normalmente a usamos como sinônimo de despreparo, ignorância ou incapacidade. Mas alguém pode conhecer profundamente determinado assunto e ainda assim estar errado.

Um médico experiente pode errar um diagnóstico. Um engenheiro pode não prever uma falha. Um economista pode explicar com enorme precisão por que aconteceu ontem aquilo que não conseguiu prever anteontem. Um arquiteto de software pode desenhar uma solução que parece impecável e que, dez anos depois, será apontada como exemplo de tudo o que não deveria ter sido feito.

E agora temos a inteligência artificial.

Talvez a mais recente tentativa de terceirizarmos a competência. Podemos fazer uma pergunta sobre praticamente qualquer assunto e receber, em poucos segundos, uma resposta organizada, articulada e aparentemente segura. E, algumas vezes, completamente errada.

Talvez isso nos incomode tanto porque a máquina apenas tornou mais visível um comportamento que já conhecíamos. Nós também fazemos isso. Preenchemos lacunas. Construímos explicações. Procuramos padrões. Tomamos decisões com informações incompletas e, depois, contamos uma história coerente sobre por que fizemos aquilo.

A diferença é que chamamos isso de experiência.

Não existe o andar de cima

Depois de algumas décadas trabalhando, talvez uma das descobertas menos confortáveis seja perceber que não existe o andar de cima. Não existe uma sala onde finalmente estão reunidas as pessoas que entenderam tudo. Há apenas outros seres humanos tentando compreender o que têm diante de si e tomando decisões como nós mesmos.

Alguns estudaram mais. Alguns têm mais experiência. Alguns são excepcionalmente inteligentes. Outros aprenderam a esconder muito bem suas dúvidas. E todos tentam decidir alguma coisa antes da próxima reunião.

Isso não significa que conhecimento, estudo ou experiência sejam inúteis. Muito pelo contrário. Existem pessoas extraordinariamente competentes e outras que, francamente, deveriam estar fazendo outra coisa.

Mas mesmo as melhores trabalham dentro de limites.

Não conhecemos todas as variáveis. Não conseguimos antecipar todas as consequências. Somos influenciados pelo que deu certo da última vez, pelo que os outros estão fazendo, pelo que está na moda, pelo que queremos que seja verdade e, talvez mais frequentemente do que gostaríamos de admitir, pelo medo de parecer que não sabemos.

Às vezes uma equipe cheia de gente brilhante toma uma série de decisões desastrosas que derrubam o projeto, e ninguém precisou ser incompetente para que isso acontecesse.

Talvez sempre tenha sido assim

O curioso é que, apesar disso, as coisas funcionam. Ok, não sempre. Não tão bem quanto contamos depois. E quase nunca exatamente como foram planejadas. Mas pontes são construídas. Aviões atravessam oceanos. Empresas sobrevivem. Sistemas processam bilhões de transações. Doenças são tratadas. Pessoas pousam na Lua.

Talvez tenhamos confundido essas realizações com a existência de uma competência muito maior do que realmente possuímos. Olhamos para o resultado pronto e imaginamos que alguém sabia, desde o início, exatamente como chegar até ali.

Raramente foi assim. Houve erros, improvisos, decisões ruins, acidentes, correções, gente insistindo na coisa errada.

Depois organizamos tudo numa apresentação e chamamos de lessons learned contando só o que deu certo.

Conclusão

Quando eu era jovem, achava preocupante descobrir que uma pessoa numa posição importante não sabia o que estava fazendo.

Hoje isso me preocupa pouco. Provavelmente porque encontrei pessoas brilhantes que cometeram erros enormes. Talvez porque tenha visto certezas desaparecerem, tecnologias revolucionárias envelhecerem e decisões consideradas absurdas se mostrarem corretas anos depois.

Ou talvez simplesmente porque já tive tempo suficiente para descobrir quantas vezes eu também estava errado.

Depois de muitos anos trabalhando, uma das coisas que perdi foi a crença de que, em algum lugar, existem pessoas que sabem exatamente o que estão fazendo. Não existem.

Existem pessoas mais preparadas e outras menos. Algumas estudam muito. Algumas improvisam muito bem. Algumas escondem melhor as dúvidas.

E, de vez em quando, alguém acerta.

E eu também sou um deles.