Ainda existe mercado para quem quer trabalhar com COBOL e mainframe?

Essa provavelmente é a pergunta mais frequente que recebo sempre que falo de mainframes e COBOL. E todas as vezes respondo que sim, há mercado e faltam profissionais. Mas uma coisa é o que percebo nas empresas. Outra é afirmar isso com dados que sustentem essa percepção. Então resolvi pesquisar.

Comecei pelo caminho mais óbvio: sites com ofertas de emprego, como Glassdoor, Gupy, Indeed e LinkedIn. As buscas por “mainframe” e “COBOL”, dependendo do site, mostram entre 40 e 60 vagas. Mas esses números dizem pouco. Uma mesma vaga pode aparecer em vários sites, algumas permanecem publicadas mesmo depois de preenchidas e muitas contratações acontecem por meio de recrutadores, indicações e movimentações internas.

Por isso, decidi procurar dados mais consolidados.

As empresas ainda pretendem contratar

Um dos levantamentos mais interessantes que encontrei foi o Global Mainframe Skills Report, realizado pela The Futurum Group em parceria com IBM, Broadcom e 21CS. Esse estudo pesquisou três grupos distintos: profissionais e empregadores que investem em mainframe, estudantes de TI interessados em carreiras na plataforma e líderes de universidades que oferecem algum tipo de formação em mainframe.

O relatório mostra que 91% dos empregadores pesquisados pretendiam contratar profissionais para novas posições relacionadas a mainframe nos dois anos seguintes. O que me chamou a atenção foi a expressão “novas posições”: não estamos falando apenas da substituição de profissionais que estão se aposentando.

Ao mesmo tempo, 61% dos líderes de universidades pesquisados ainda percebiam uma diferença entre as competências disponíveis e aquilo que os empregadores procuravam. Curiosamente, 65% afirmavam que havia mais profissionais com conhecimentos de mainframe disponíveis do que cinco anos antes.

Aparentemente, portanto, gente nova está chegando. Mas as empresas continuam encontrando dificuldade para conseguir determinadas competências.

Outro dado que chamou minha atenção é que 79% dos empregadores pesquisados estavam recrutando profissionais de mainframe em nível intermediário de carreira (mid-career), contra 51% que recrutavam para posições de entrada. Minha hipótese é que o gargalo não está apenas na formação de novos programadores COBOL, mas na dificuldade de encontrar gente que combine experiência profissional com competências na plataforma mainframe.

Mas as empresas não estão abandonando o mainframe?

Essa seria uma objeção perfeitamente razoável. Afinal, de pouco adiantaria existir demanda por profissionais hoje se as empresas estivessem planejando desligar seus mainframes amanhã.

Os dados que encontrei não apontam nessa direção.

A edição de 2025 do Arcati Mainframe User Survey mostra que apenas 3,2% dos participantes planejavam desativar seus mainframes nos três anos seguintes. Em 36% das organizações pesquisadas, mais da metade da receita passava por aplicações executadas nessa plataforma.

Outra pesquisa, realizada em 2025 pela Kyndryl], sobre modernização de mainframes, aponta para um fenômeno parecido. Em vez de simplesmente substituir a plataforma, muitas organizações estão integrando seus sistemas existentes com a nuvem, APIs, automação e práticas modernas de desenvolvimento.

Isso muda bastante a discussão. O desafio deixa de ser apenas encontrar alguém que domine o uso tradicional do mainframe e passa a ser encontrar profissionais capazes de combinar esse conhecimento com novas formas de integração, automação e desenvolvimento.

E o COBOL?

Aqui encontrei outro dado interessante.

Uma pesquisa realizada pela Vanson Bourne para a Micro Focus, hoje OpenText, estimou a existência de mais de 800 bilhões de linhas de COBOL em sistemas de produção ao redor do mundo. Entre os profissionais pesquisados, 92% consideravam as aplicações COBOL de suas organizações estratégicas para o negócio.

Naturalmente, quantidade de código não significa quantidade de empregos. Um bilhão de linhas de COBOL não cria automaticamente mil vagas para programadores.

Mas esses números ajudam a desmontar outra ideia que aparece frequentemente nessa discussão: a de que o COBOL estaria sobrevivendo apenas enquanto as empresas terminam de substituir seus últimos sistemas legados.

Pelo menos por enquanto, não parece ser isso que está acontecendo.

Onde está a falta de profissionais?

Esses dados reforçam uma percepção que tenho há bastante tempo: existe, sim, uma dificuldade de renovação da mão de obra qualificada em COBOL e mainframe. Durante muitos anos, entraram poucos profissionais novos nesse mercado, enquanto uma geração que acumulou décadas de experiência começou a se aproximar da aposentadoria.

Isso não significa, porém, que não existam novos profissionais chegando. O próprio estudo da Futurum mostra um aumento na disponibilidade de pessoas com conhecimentos de mainframe e indica que encontrar esses profissionais não é necessariamente mais difícil do que encontrar especialistas em outras áreas disputadas da tecnologia.

O problema aparece quando olhamos para a experiência. O mesmo estudo mostra que a maior parte dos empregadores entrevistados estava recrutando profissionais de mainframe em nível intermediário de carreira. A maior dificuldade, portanto, não é apenas formar novos programadores, mas encontrar pessoas capazes de assumir responsabilidades que antes estavam nas mãos de profissionais com muitos anos de experiência.

É justamente aí que a aposentadoria pesa. Não se substitui um profissional com vinte ou trinta anos de experiência simplesmente colocando outra pessoa para aprender COBOL. Junto com ele vai o conhecimento sobre sistemas, arquitetura, processos e regras de negócio que levou décadas para ser construído.

Então existe mercado para quem quer voltar?

Para alguém que trabalhou com desenvolvimento de sistemas no passado e está pensando em retornar à área, esses dados me parecem ainda mais animadores do que a simples constatação de que “falta gente que programe em COBOL”.

O profissional experiente já traz uma parte difícil de construir: a capacidade de entender sistemas grandes, investigar código existente, compreender regras de negócio e avaliar o impacto de uma alteração. Naturalmente, terá de atualizar conhecimentos e aprender ferramentas que não faziam parte de sua rotina quinze ou vinte anos atrás.

Para quem pretende entrar ou voltar para esse mercado, o primeiro passo é construir ou atualizar uma base sólida em COBOL e compreender o ambiente em que esses sistemas são desenvolvidos e mantidos. Porém, a experiência profissional acumulada em outras tecnologias ou áreas de negócio complementa esse conhecimento e pode se transformar em um diferencial importante na busca por uma oportunidade.

As pesquisas que encontrei respondem à pergunta que deu origem a este artigo: sim, existe mercado.

Só que as empresas não estão procurando simplesmente o “programador COBOL”. Elas estão procurando profissionais capazes de entender sistemas construídos ao longo de muitos anos e, ao mesmo tempo, ajudá-los a continuar evoluindo.

E, para quem está pensando em voltar à área, essa diferença pode ser justamente a melhor notícia.