Se você saiu do mainframe há 15 anos ou mais, talvez se surpreenda com o que vai encontrar ao voltar

Quem deixou a área de tecnologia há dez ou quinze anos e pensa em voltar costuma imaginar que encontrará um cenário completamente diferente daquele que conheceu. Essa impressão é ainda mais forte quando o assunto é mainframe. Afinal, basta acompanhar notícias sobre inteligência artificial, computação em nuvem ou desenvolvimento web para concluir que tudo mudou e que o conhecimento acumulado no passado já não tem mais utilidade.

Minha impressão, porém, é um pouco diferente.

Depois de conversar com profissionais que estão retornando ao mercado e de acompanhar projetos modernos que continuam utilizando a plataforma, tenho percebido que as maiores mudanças aconteceram ao redor do mainframe, e não necessariamente dentro dele.

O ambiente mudou

Há quinze ou vinte anos, era comum enxergarmos o mainframe como uma plataforma relativamente isolada. Os sistemas conversavam entre si, os usuários acessavam terminais, os arquivos eram trocados em horários previamente definidos e boa parte da integração acontecia dentro dos próprios limites da empresa.

Hoje, o cenário é outro. É comum que um aplicativo de celular envie uma requisição para uma API, essa API acione uma transação CICS, consulte informações em um banco DB2, publique uma mensagem em uma fila MQ e devolva a resposta ao usuário em poucos segundos. Em muitos casos, parte dessa arquitetura está em servidores distribuídos ou em ambientes de nuvem, enquanto o processamento das regras críticas continua acontecendo no mainframe.

Além disso, ferramentas como Git, pipelines de integração contínua, ambientes automatizados de testes e práticas de DevOps passaram a fazer parte da rotina de muitas equipes. São mudanças importantes e que exigem atualização, mas vale observar que elas estão muito mais relacionadas ao processo de desenvolvimento do que propriamente ao software que executa no mainframe.

O COBOL mudou menos do que se pode imaginar

Quando alguém fica muitos anos afastado da área, costuma pensar que precisará reaprender a linguagem praticamente do zero. Essa talvez seja uma das maiores surpresas para quem decide voltar.

O COBOL evoluiu. Novos recursos foram incorporados ao padrão da linguagem, compiladores modernos oferecem funcionalidades que não existiam décadas atrás e algumas práticas foram aperfeiçoadas. Ainda assim, a essência da linguagem continua sendo a mesma.

Quem programava em COBOL há quinze ou vinte anos reconhecerá a maior parte do código encontrado em um sistema corporativo atual. Evidentemente será preciso conhecer novos recursos e entender as práticas mais recentes, mas a experiência acumulada continua sendo extremamente útil. Não se trata de começar outra carreira, mas de atualizar uma carreira que já existia.

O mainframe, sim, evoluiu

O fato do COBOL ter mudado pouco e continuar sendo a linguagem mais usada não significa, naturalmente, que a plataforma tenha permanecido parada no tempo.

O z/OS evoluiu continuamente, novas tecnologias foram incorporadas, o Linux ganhou espaço dentro da plataforma, soluções como o z/OS Connect facilitaram a integração com APIs modernas e o próprio hardware passou por inúmeras gerações de aperfeiçoamento.

Entretanto, quando observamos os grandes sistemas corporativos, percebemos que muitos de seus componentes fundamentais continuam presentes. CICS, DB2, MQ e processamento batch permanecem desempenhando papéis centrais em milhares de aplicações críticas. Jobs e procs são processados pelo JES da mesma maneira, as SYSOUTS ainda estão disponíveis no SDSF e a gente continua criando, renomeando e deletando data sets com a mesma opção 3.2 do TSO/ISPF.

A plataforma mudou, mas sem romper com aquilo que já funcionava bem. Talvez essa seja justamente uma de suas principais características: evoluir preservando a enorme quantidade de conhecimento e de investimento construída ao longo de décadas.

O trabalho continua surpreendentemente parecido

Talvez a maior descoberta de quem retorna ao mercado seja perceber que os problemas do dia a dia continuam muito familiares.

Ainda é necessário compreender regras de negócio, investigar programas grandes, analisar impactos antes de modificar um sistema, localizar a origem de um problema de produção, conversar com usuários e garantir que uma alteração não provoque efeitos inesperados em outras partes da aplicação.

Em outras palavras, a tecnologia utilizada para construir o ecossistema tem novidades, mas a atividade intelectual do desenvolvedor continua essencialmente a mesma. A experiência adquirida analisando sistemas complexos continua tendo valor, principalmente em ambientes nos quais o conhecimento do negócio é tão importante quanto o domínio da linguagem de programação.

Aprender ficou muito mais fácil

Essa é a mudança que considero a mais importante do que qualquer outra inovação.

Quando comecei a trabalhar com mainframe, grande parte do conhecimento estava concentrada dentro das empresas. Aprendia-se observando colegas mais experientes, consultando manuais impressos e, muitas vezes, experimentando diretamente em ambientes de desenvolvimento bastante restritos.

Hoje a realidade é diferente. Há cursos online, vídeos, documentação acessível, laboratórios remotos e ferramentas capazes de acelerar significativamente o aprendizado. Até mesmo a inteligência artificial pode ajudar a explicar conceitos, revisar código ou esclarecer dúvidas que antes dependeriam da disponibilidade de outro profissional.

Curiosamente, embora o ecossistema tenha se tornado mais complexo, aprender a trabalhar nele nunca foi tão acessível.

Vale a pena voltar?

Novas tecnologias surgiram, novas ferramentas passaram a fazer parte do cotidiano e novas formas de desenvolver software foram incorporadas pelas empresas, mas a experiência adquirida ainda tem valor.

Quem já aprendeu a entender sistemas complexos, interpretar regras de negócio e construir soluções confiáveis dificilmente perde essa capacidade. Será necessário estudar, atualizar conhecimentos e compreender as tecnologias que surgiram nesse período, mas isso é muito diferente de começar do zero.

Talvez, ao voltar para a área de mainframe, você descubra que as maiores mudanças aconteceram ao redor da plataforma. E que justamente aquilo que parecia ter envelhecido — sua experiência profissional — continua sendo um dos ativos mais valiosos que você pode levar para o próximo projeto.